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O trajeto incerto e o gesto urgente de Letícia Façanha
Letícia Façanha tem uma visão irradiada pela surpresa da paisagem que muda num piscar de olhos, o que exige um olhar atento e apurado dessa artista que insiste em se afetar pelo caminho que a viagem lhe dispõe. Caso contrário, as imprevisibilidades do trajeto podem ser vistas de relance ou, até mesmo, perdidas na estrada. Ela se atenta para a disposição das cores, a condição da materialidade e suas possíveis composições. Entretanto, o que não pode passar ileso é que a paisagem, o trajeto, a entrega e a ótica da artista são determinantes para a invenção de novas visualidades. Nada garante que aquilo que se vê no óleo sobre tela tenha qualquer fidelidade à realidade concreta, pois Letícia não se limita à previsibilidade do que já lhe ocorreu e inventa uma visualidade própria, mas faz questão de reverenciar à paisagem da janela.
Espelho d’água não se contenta com a lógica da repetição ou da imitação. Até porque se assim fosse, teria um fim frustrado ao se perceber mais direcionada ao Simulacro, do que à própria cópia autêntica. O fato é que a condição do acaso não é e nem pode ser rotineira, mas é elemento fundante na obra de Letícia Façanha. O trajeto, a viagem, o caminho dão palco para as composições do inesperado poder do acaso e Letícia se dispõe, se deslumbra, se comove e compõe junto. A mesma imprevisibilidade que atravessa qualquer caminho, atravessa Letícia. Ela se permite inquietar por aquilo que lhe surge, e se aprofunda no mistério. Se trata de uma atitude que dá margem para a comoção, de modo que abdicar de uma tela possivelmente pronta para criar novas camadas de tinta se torna um gesto urgente.
Ainda que esse gesto fale de um método, não é imperativo que determine a origem da Espelho d’água, mas torna seu destino impreciso. A Espelho d’água se realiza pela disputa amena de cores contrastantes para concretização da matéria translúcida. Letícia consegue tensionar linhas pelo efeito de raios de sol que se conduzem em uma rasante. Talvez nunca seja possível afirmar com exatidão o percurso que Letícia fez para pactuar o momento em que a Espelho d’água seria colocada na parede de uma galeria, e o que pode ser mais inquietante é que não é possível saber para qual lado essa água corre, o que induz a um destino vago. No entanto, a obra também tem um poder de sugestão: ela nos invade e, à mesma maneira que ocorre com os encontros inesperados de um caminho ainda se trilhar, ela nos instaura a necessidade absoluta de um gesto. Eis aqui meu gesto.
– Paula Gadelha Ferreira Costa: Graduada no curso de Pedagogia pela UFC, sua trajetória vai desde a educação formal até a área da cultura, perpassando o campo da pedagogia social e a educação museal.
Espelho d'Água, 2024
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